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12 jul ter

Transgenialer, a parada queer

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Transgenialer CSD (algo como The Transgendered Christopher Street Day) é a Parada Queer de Berlim, que acontece ao mesmo tempo que a tradicional Parada Gay, dia 24 de Junho.

Enquanto lá em Brandenburger Tor, perto do Tiergarten (tradicional parque que é point de pegação onde a Parada, quando passa, misteriosamente desaparece), o desfile segue nos modos “tradicionais” das mesmas paradas gays do resto do mundo, com trios-elétricos e homens fortes, depilados e muita música euro-trash, lá em Kreuzberg, que é como se fosse a Lapa de Berlin, acontece a Transgenialer.

Essa existência de duas Paradas Gays, diz muito sobre a cultura em Berlim, onde a diferença entre o estabelecido e o desestabilizador se apresenta o tempo todo.. A contra-cultura, se é que hoje ainda pode se falar em contra-cultura, é muito forte em Berlim. Aqui é super comum ser do-contra e o alternativo é o mainstream. As pessoas são super politizadas, ousadas e auto-confiantes em relação às suas opiniões, o que muitas vezes resulta apenas em teimosia e crença em discursos pseudo-progressistas. As pessoas não ligam pra marcas e te olham torto se você liga. A maioria dos jovens divide apartamentos – os WGs – trabalham pouco e festejam muito. Saindo do trabalho ou da faculdade, o mais comum é sentar num parque, beber uma cerveja e enrolar os seus próprios cigarros, o que sai bem mais barato do que comprar o maço. O estilo de vida barato da cidade, em relação a outras grandes capitais européias, ajuda.

E obviamente tem o movimento “do-contra” da cultura gay. Nada de glitter e música dance bagaceira. Nada de academia e anabolisantes. Os pêlos corporais são mais do que aceitos, são cultivados. Legiões intermináveis de meninos barbudos. Com outros meninos barbudos. E todos com seus corpos naturais, uns mais magrelos, outros com uma barriguinha, cada um do jeito que é. Todos lindos. O movimento dos ursos, dos transexuais e das butch também são muito maiores do que no Brasil.

Apesar de organisada por pessoas de evidente tendência política esquerdista, a Transgenialer rejeita patrocinadores e bandeiras de partidos e tenta manter-se um tanto fiel à anarquia. Com o slogan desse ano “Queer não é domável, não é computável” a Transgenialer contou com toques de brasilidade. O projeto de queer-funk Solange tô Aberta e Paulo Belzebitchy se apresentaram.

Mas não é por causa do cunho mais politizado que a Transgenialer CSD deixa de ser uma festa de rua super divertida. Parece uma marcha das vadias, só que com homens, mulheres, trans e todas as outras cores do arco-íris. E porque o povo é politizado mesmo, eles acabam usando a festa para divulgar alguma causa, como por exemplo a solidariedade com manifestações gays em países menos liberais que a Alemanha, ou a luta contra a patologização da Transexualidade, contra a Transfobia, a heteronormatividade e até questões não-sexuais como o movimento de gentrificação que vem pouco a pouco transformado Berlim em uma metrópole como todas as outras.

No final, o desfile alternativo acabou mesmo é na Oranienstraße, ainda em Kreuzberg, onde acontece uma imensa festa de rua e o povo se joga. Ainda bem…

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Autor

Diego Wiltshire, psicólogo e artista plástico perdido na cena cultural e noturna de Belim.

Principais Assuntos

Cena cultural, Noite.

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