Projeto BASEMENT
- Por: Cena Berlim
- Tags:BASEMENT
O projeto “BASEMENT” tenta mostrar o que há no porão criativo dos projetos de performance art.
Convenhamos que muitas vezes, ou na maioria delas, as performances não fazem muito sentido pra quem está de fora do processo criativo e não tem acesso à informação que deu origem a uma determinada performance. E em cidades como Berlim você chacoalha uma árvore e caem, ao invés de maçãs, performers.
Com tanta informação, fica-se exposto a todo tipo de coisa. Algumas realmente não fazem sentido nenhum. Outras são incríveis e absolutamente impactantes, ou tocantes.
O bom é que tem espaço para todo mundo, e a facilidade para organizar e mostrar seu trabalho aqui parece ser muito maior do que no Brasil. Pelo menos aqui de fato há público.
No BASEMENT, um grupo de performers foi convidado para dividir seus trabalhos em sessões íntimas e privadas de 10 minutos com pessoas do público, antes de apresentarem suas obras, ou processos. Uma oportunidade única, e bastante interessante, de ver o que está por trás de uma forma de arte ainda não muito bem entendida pelo grande público.
Durante os 10 minutos os artistas tinham total liberdade para dividir seus processos, ideias, metodologias e/ou inspirações ligados aos trabalhos que seriam apresentados mais tarde.
Eu fui pessoalmente às sessões individuais com 4 dos 5 performers e descrevo abaixo minhas impressões sobre a experiência, contando como foi a impressão nos 10 minutos que tive a sós com eles e a impressão posterior, da performance para o público geral.
Os artistas escolhidos foram:
Hermann Heisig – “In tis beautiful countryside”
Nos 10 minutos: grama artificial. movimentos improvisados, som de floresta e pássaros e a pergunta “onde está a linha do horizonte?”. Ele dizia que não era pra ser muito trippy, mas foi. Pareceu fiel ao título. Na performance: não me ajudou a entender e foi totalmente trippy e o título se perdeu, um tanto quanto.
Ixchel Mendoza – “Viual Ghost”
Nos 10 minutos: uma sala cheia de cacarecos que pareciam achados no porão da casa da avó. Ela era muito simpática mas estava ainda no meio do processo da performance e não tinha um objetivo estabelecido.
Na performance: O “fantasma visual” de objectos que eram visivelmente velhos e já pertenceram a pessoas que são hoje em dia potenciais fantasmas, não foi usado.
Me pareceu que ela pegou vários objectos de casa e trouxe para dividir com o público para tentar encontrar sua inspiração, mas se perdeu na pressão de ter que apresentar algo.
Jeremy Wade – “Fountain”
Nos 10 minutos: A frase que estate no programa era muito interessante “I’ll take this weight from you give it to me i can take it!”, literalmente “Eu tirarei esse peso de você me dê eu posse aguentá-lo!”. Eu, como bom psicólogo comecei com isso e Jeremy ficou muito incomodado de início e disse que não queria ser entrevistado, porque não era a proposta. Mas eu reconheço uma pessoa sensível quando vejo uma, e a conversa melhorou quando eu saí da minha postura de entrevistador e me abri mais à conversa, levando-a para um lado mais pessoal.
Na performance: Absolutamente impactante e chocante a maneira como ele cumpriu à risca a proposta da frase acima. Jeremy parecia recolher o sofrimento da platéia inteira, sugando-o, fazendo muito barulho, e deformando o seu corpo de acordo com a quantidade de sofrimento que sugava. Confesso que encheu meus olhos de lágrimas. Admirável um artista que disponibiliza dessa maneira suas emoções.
Sheena McGrandles – “Eee”
Nos 10 minutos: Eu, vegetariano há uns 10 anos, chego nos meus 10 minutos com Sheena e vejo uma peça de carne crua em cima da mesa. Ela queria minha ajuda para cortar fatias finas e costurá-las umas nas outras. O objetivo, fazer uma corrente de carne, um novo corpo, e gravar com ferro quente palavras de Samuel Beckett na carne: uma maneira de reinserir a voz no corpo. Obviamente para mim foi muito forte, porque acho que jamais cheguei a cortar um pedaço de carne na minha vida. Depois de todas as sessões individuais, Sheena fez um churrasco ao ar livre com a carne usada na performance.
Na performance: A carne sendo frita numa panela com manteiga – o cheiro tomando conta do galpão, um clima cavernoso, um foco de luz e um corpo queer, desconstruído. Algo meio Hannibal Lector encontra Slot dos “Goonies”. Assustador. Incrível para os sentidos e como ela fez o link entre a proposta anterior e o que foi apresentado após, sem cair no óbvio.
Sandra Lolax – “Am I ready for action?”
Nos 10 minutos: (foi a única com quem não conversei pessoalmente, porque não deu tempo, mas adoraria tê-lo feito) Na performance: Frases repetitivas e movimentos repetitivos com nomes trocados de partes do corpo. Descrevendo parece chato, mas foi muito sensível e bonita. A frase repetida à exaustão “…and here I’m touching you…and here I’m touching you…” grudou na cabeça como chiclete. A performance é baseada na retórica da existência de práticas somáticas.
Foi isso. No todo achei a proposta muito bacana, uma oportunidade singular e certamente inesquecível. Parabéns pros idealizadores e organizadores (Ah! Todos brasileiros!) Marcela Donato, Sandro Amaral e Thiago Granato
Os parques de Berlim
- Por: Cena Berlim
- Tags:parque
Berlim, em termos de temperatura, é o exato oposto do Rio de Janeiro: ao invés de seis meses de intenso calor, são seis meses de intenso frio. No resto do ano a temperatura é, digamos, agradável. Esse ano, durante o verão, a temperatura máxima foi de 31 graus. Em alguns anos o verão é mais quente, em outros, menos. À noite, em geral, sempre esfria bastante. Eu mesmo não saí de casa nenhum dia este ano sem levar um casaco.
No entanto, isso não atrapalha a vida ao ar livre, nos meses de temperatura agradável. No meio da primavera e durante o verão, o berlinense passa muito tempo na rua e, principalmente, nos parques, desde que não esteja chovendo – o que acontece mais do que deveria. São inúmeros parques, dos mais calmos e bucólicos aos mais fervidos e animados.
A vida ao ar-livre também não tem dia para acontecer. Durante a semana ou nos fins de semana, os parques estão sempre densamente ocupados, dando a impressão de que nessa cidade não se trabalha muito. Obviamente nos fins de semana os parques ficam mais cheios, às vezes cheios demais.
Aqui não há proibição de pisar na grama – a grama foi feita para ser pisada e usada. As multidões ocupam os gramados, como no Rio de Janeiro ocupa-se a areia das praias. Tira-se os sapatos e usa-se pouca roupa. Os passatempos são inúmeros: a companhia dos amigos, namorados, um livro, um churrasco, uma cerveja, o cachorro, música, acrobacias, etc. Como aqui é uma cidade relativamente segura, alguns até tiram um cochilo sob o sol.
As inúmeras garrafas de cerveja e outras bebidas não-alcóolicas são prontamente recolhidas por catadores: aqui cada garrafa de vidro é trocada por 8 centavos de Euro e as de plástico 25.
Berlim é a capital mais verde da Europa. São tantos os parques e vias à beira dos canais, que você pode sempre mudar de cena.
Abaixo uma pequena descrição dos principais parques da cidade:
Tiergarten
O maior parque, localizado no meio da cidade, já foi um playground para caça esportiva da nobreza. Hoje em dia, não é dos mais populosos, talvez por estar localizado num área não muito residencial. Mas o tamanho impressiona e é óptimo para passear de bicicleta pelas alamedas ultra arborizadas.
Görlitzer Park
Localizado em Kreuzberg, é um dos mais povoados, nos finais de semana. Hipsters de todos os tipo ocupam o gramado e exibem seus modelitos do tipo “joguei todas as roupas pra cima e sorteei o que ia usar”.
Mauerpark
Lugar do semanal mercado de pulgas e karaoquê aos Domingos. O Karaoquê começou bem pequeno e foi crescendo, até virar uma mega evento semanal, com público ultrapassando as mil pessoas. Os achados no mercado de pulgas surpreendem. Dá pra montar o guarda-roupa todo lá por pouco dinheiro.
Treptower Park
Localizado na antiga Berlin oriental, tem um belíssimo e grandioso memorial aos soldados soviéticos mortos em batalha. Esse parque é banhado pelo Rio Spree, de modo que pode-se sentar à beira d’água e molhar os pés. Alguns barcos grandes passam cheios de turistas e outros, pequenos, com pessoas simplesmente curtindo um passeio com os amigos.
Tempelhof
Um antigo aeroporto, localizado em Neukölln, foi desativado e virou um dos maiores parques da Europa inteira. Não há árvores, mas um imenso gramado, cortado pelas pistas de decolagem. Alguns fazem usos mais alternativos desse espaço tão específico – e com bastante vento – e praticam esportes que precisam de vento e longos trajetos planos. O silêncio durante a semana impressiona: pode-se deitar na grama sem ninguém ao redor e ouvir absolutamente nada. Uma sensação de calma raramente vivenciada numa metrópole.

BERLIM — Centenas de mulheres desfilaram neste sábado pelas ruas de Berlim e de outras cidades da Alemanha vestidas com roupas provocantes para protestar contra o abuso sexual de mulheres, acompanhando o movimento mundial da “Marcha das Vadias”.
Este movimento nasceu no Canadá em abril, quando um policial de Toronto declarou que as mulheres “deviam evitar se vestir como vadias para não serem agredidas”.
A marcha já aconteceu em diversas cidades do mundo, inclusive no Brasil (em São Paulo no dia 4 de junho, Brasília no dia 18 e Rio de Janeiro no dia 2 de julho).
Dezenas de protestos desse tipo estão programados para acontecer no mundo inteiro nos próximos meses.
Mica Moca Project Berlin
- Por: Cena Berlim
- Tags:Berlim, Fabrik, fotografia, instalação, Mica Moca
Mica Moca Project Berlin – Experimenteller Kultur Generator – é um projeto multi-mídia que começou em Maio deste ano e vai até Setembro, numa antiga fábrica em Wedding, parte norte de Berlin. A idéia é reunir todo tipo de contribuição artística no mesmo espaço: música, performance, dança, vídeo, som, artes visuais, filme, moda, fotografia, escrita, instalação, arquitetura, festa…
Os criadores descrevem o projeto como uma explosão de possibilidades, um experimento em misturar gêneros, confrontar a cultura vigente e desafiar a imaginação. A idéia é que seja um espaço livre e aberto para que pessoas possam mostrar seus trabalhos e entrarem em contato com outras pessoas que elas não conheceriam em situações normais.
Só o ambiente da fábrica já é inspirador. Ele capta a essência de Berlin: cinza, parcialmente destruído e parcialmente reconstruído, amplo.
Diversas nacionalidades de artistas também já passaram por lá. E a rotatividade é grande, de modo que a cada novo fim de semana, existe uma nova programação. Os artistas se juntam para arcar com quaisquer custos que possam ter em montar suas instalações/ exposições e o público paga 5 Euros.
No fim de semana de 16 e 17 de Julho aconteceu uma junção do Playground Berlin Weekend, um coletivo internacional dedicado à colaborações artísticas, com o Mica Moca Project. Nele participaram a fotógrafa Joana Dias e a dançarina/performer Marcela Donato, ambas brasileiras e residentes em Berlin.
Transgenialer CSD (algo como The Transgendered Christopher Street Day) é a Parada Queer de Berlim, que acontece ao mesmo tempo que a tradicional Parada Gay, dia 24 de Junho.
Enquanto lá em Brandenburger Tor, perto do Tiergarten (tradicional parque que é point de pegação onde a Parada, quando passa, misteriosamente desaparece), o desfile segue nos modos “tradicionais” das mesmas paradas gays do resto do mundo, com trios-elétricos e homens fortes, depilados e muita música euro-trash, lá em Kreuzberg, que é como se fosse a Lapa de Berlin, acontece a Transgenialer.
Essa existência de duas Paradas Gays, diz muito sobre a cultura em Berlim, onde a diferença entre o estabelecido e o desestabilizador se apresenta o tempo todo.. A contra-cultura, se é que hoje ainda pode se falar em contra-cultura, é muito forte em Berlim. Aqui é super comum ser do-contra e o alternativo é o mainstream. As pessoas são super politizadas, ousadas e auto-confiantes em relação às suas opiniões, o que muitas vezes resulta apenas em teimosia e crença em discursos pseudo-progressistas. As pessoas não ligam pra marcas e te olham torto se você liga. A maioria dos jovens divide apartamentos – os WGs – trabalham pouco e festejam muito. Saindo do trabalho ou da faculdade, o mais comum é sentar num parque, beber uma cerveja e enrolar os seus próprios cigarros, o que sai bem mais barato do que comprar o maço. O estilo de vida barato da cidade, em relação a outras grandes capitais européias, ajuda.
E obviamente tem o movimento “do-contra” da cultura gay. Nada de glitter e música dance bagaceira. Nada de academia e anabolisantes. Os pêlos corporais são mais do que aceitos, são cultivados. Legiões intermináveis de meninos barbudos. Com outros meninos barbudos. E todos com seus corpos naturais, uns mais magrelos, outros com uma barriguinha, cada um do jeito que é. Todos lindos. O movimento dos ursos, dos transexuais e das butch também são muito maiores do que no Brasil.
Apesar de organisada por pessoas de evidente tendência política esquerdista, a Transgenialer rejeita patrocinadores e bandeiras de partidos e tenta manter-se um tanto fiel à anarquia. Com o slogan desse ano “Queer não é domável, não é computável” a Transgenialer contou com toques de brasilidade. O projeto de queer-funk Solange tô Aberta e Paulo Belzebitchy se apresentaram.
Mas não é por causa do cunho mais politizado que a Transgenialer CSD deixa de ser uma festa de rua super divertida. Parece uma marcha das vadias, só que com homens, mulheres, trans e todas as outras cores do arco-íris. E porque o povo é politizado mesmo, eles acabam usando a festa para divulgar alguma causa, como por exemplo a solidariedade com manifestações gays em países menos liberais que a Alemanha, ou a luta contra a patologização da Transexualidade, contra a Transfobia, a heteronormatividade e até questões não-sexuais como o movimento de gentrificação que vem pouco a pouco transformado Berlim em uma metrópole como todas as outras.
No final, o desfile alternativo acabou mesmo é na Oranienstraße, ainda em Kreuzberg, onde acontece uma imensa festa de rua e o povo se joga. Ainda bem…
























